Espécie 'desaparecida' há mais de 70 anos é redescoberta no Cerrado goiano
14/04/2026
(Foto: Reprodução) Espécie 'desaparecida' há mais de 70 anos é redescoberta no Cerrado goiano
Isa Lucia de Morais
Uma planta que não era registrada pela ciência desde a década de 1950 voltou a ser encontrada no Cerrado brasileiro. A redescoberta da Hyptis argentea, considerada “desaparecida” por mais de 70 anos, reacende a importância da pesquisa de campo e da conservação de áreas naturais no país.
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A espécie, endêmica do Cerrado e com ocorrência apenas em Goiás, foi registrada pela última vez através do botânico Amaro Macedo, no município de Jataí (GO). Agora, novas populações foram identificadas nos municípios de Caçu e Mineiros, a mais de 100 quilômetros das coletas originais, ampliando o conhecimento sobre sua distribuição.
Mapa mostrando a distribuição de Hyptis argentea
Esri World Imagery
A descoberta é resultado de um estudo publicado na revista científica Phytotaxa e conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Goiás (UEG).
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Um reencontro guiado pela ciência
Segundo a bióloga Isa Lucia de Morais, uma das autoras do estudo, a redescoberta aconteceu durante levantamentos florísticos na região. O reencontro ocorreu no Sítio Ipê-Verde, em Caçu. "Depois, em outro levantamento em Mineiros, encontramos uma população com inúmeros indivíduos”, explica.
Novas populações foram encontradas nos municípios de Caçu e Mineiros, em Goiás
Isa Lucia de Morais
A confirmação de que se tratava da espécie “perdida” veio com o apoio de especialistas.
“Foi uma surpresa enorme. Contamos com a ajuda de pesquisadores especialistas em Lamiaceae, a família da hortelã, que inclui plantas conhecidas como manjericão, alecrim e lavanda. Foi uma alegria imensa saber que a espécie não estava extinta”, relembra.
Uma planta prateada e rara
A Hyptis argentea tem características marcantes. Seu nome já dá uma pista: “argentea” significa prateada.
A planta possui um indumento acinzentado que recobre folhas e caules, além de estruturas específicas nas flores, como lóbulos triangulares no cálice e brácteas lanceoladas. Essas características ajudam na identificação dentro de um gênero diverso.
O aspecto prateado da planta está relacionado aos tricomas acinzentados presentes no caule e nas folhas
Isa Lucia de Morais
Mais rara do que se imaginava
A redescoberta também trouxe novas informações sobre onde a espécie vive. Antes restrita a um único ponto no mapa, agora se sabe que ela ocorre em pelo menos três municípios goianos.
Para os pesquisadores, isso revela o quanto ainda há de desconhecido na flora brasileira.
A espécie havia sido registrada anteriormente apenas no município de Jataí, em Goiás, na década de 1950
Isa Lucia de Morais
“A grande extensão do Brasil e a necessidade de mais estudos mostram que ainda existem muitas lacunas no conhecimento das nossas plantas, especialmente no Cerrado”, destaca Isa.
Ameaças e risco de extinção
Apesar do reencontro, a situação da espécie é preocupante. A Hyptis argentea foi classificada como “Em Perigo”.
Entre as principais ameaças estão a expansão agropecuária, o desmatamento para monoculturas, o uso do fogo e as mudanças climáticas, as quais fragmentam e reduzem a biodiversidade.
A espécie ocorre em área de Cerrado e enfrenta ameaças como expansão agropecuária, desmatamento e mudanças climáticas
Isa Lucia de Morais
Um refúgio no meio do Cerrado
Parte das plantas redescobertas está no Sítio Ipê-Verde, em Caçu – uma área preservada que se tornou essencial para a sobrevivência da espécie.
A proprietária do local, Lionizia Goyá, conta que o momento foi marcante. "Saber que uma espécie que a ciência não coletava desde a década de 1950 encontrou refúgio justamente nesta terra é algo que me emociona profundamente”.
Lionizia Goyá (esq.) e Isa Lucia Morais
Arquivo pessoal
Ela explica que decidiu preservar a área de Cerrados em vez de transformá-la em lavoura. Após a redescoberta, medidas práticas foram adotadas, como o cercamento da área para evitar o pisoteio do gado.
“Se eu tivesse escolhido a monocultura, essa espécie estaria hoje definitivamente extinta. O proprietário rural pode ser o primeiro guardião da biodiversidade”, reforça.
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Ciência de campo e memória preservada
O estudo também destaca o papel fundamental dos herbários, coleções científicas que guardam registros históricos das plantas.
Esses acervos funcionam como verdadeiras bibliotecas da biodiversidade e, junto com o trabalho de campo, permitem identificar espécies, revisar classificações e até redescobrir plantas consideradas desaparecidas.
A Hyptis argentea foi classificada como “Em Perigo”
Isa Lucia de Morais
“O avanço do conhecimento da flora brasileira depende dessa integração: ir a campo e, ao mesmo tempo, consultar os registros preservados nos herbários”, explica Isa Lucia de Morais.
O caso da Hyptis argentea não é isolado. O Cerrado, considerado um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo, ainda guarda muitas espécies pouco conhecidas e até “perdidas” para a ciência.
A redescoberta mostra que proteger áreas naturais e investir em pesquisa são passos fundamentais para revelar e preservar essa riqueza.
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