Nascer, acasalar e morrer em 5 minutos: os animais de vida curtíssima
23/02/2026
(Foto: Reprodução) O animal bizarro que passa mais tempo dentro do ovo do que na natureza
iNaturalist
Para a maioria dos seres humanos, o tempo é uma métrica longa, calculada em décadas e planejada para o futuro. Na natureza, porém, o relógio biológico de algumas espécies gira em uma velocidade implacável. Enquanto tartarugas e baleias cruzam os séculos, uma parcela fascinante da fauna global vive sob a urgência dos dias, horas ou até minutos.
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A vida curta não é uma falha evolutiva, mas uma estratégia de sobrevivência altamente especializada. Seja para escapar da seca iminente ou para garantir que a próxima geração nasça no momento exato de abundância de alimento, esses animais transformaram a brevidade em seu maior trunfo.
Abaixo, o Terra da Gente detalha as espécies que detêm os recordes de menor expectativa de vida em seus respectivos grupos na biologia.
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Insetos: a vida que dura um suspiro
O recorde absoluto de brevidade no reino animal pertence a um grupo de insetos aquáticos conhecidos popularmente como efêmeras, nome que já denuncia sua principal característica.
Efêmera-americana (Dolania americana)
joseph92 / iNaturalist
A espécie: Efêmera-americana (Dolania americana).
Tempo de vida adulto: menos de 5 minutos (fêmeas).
O ciclo: a maior parte da vida deste inseto ocorre debaixo d'água, na fase de ninfa, onde pode passar até dois anos se alimentando e crescendo. O espetáculo, no entanto, é a sua fase adulta. Quando emergem da água, as efêmeras não possuem sequer um sistema digestivo funcional — elas não têm boca. A única missão biológica neste estágio é o voo nupcial para o acasalamento. As fêmeas da espécie Dolania americana vivem menos de cinco minutos após criarem asas, o tempo exato de cruzar no ar, depositar seus ovos na água e morrer.
Répteis: o vertebrado que vive mais no ovo do que no mundo
Em Madagascar, uma ilha conhecida por seu isolamento e biodiversidade única, vive um réptil que desafia a lógica do envelhecimento dos vertebrados terrestres.
Camaleão-de-Labord (Furcifer labordi)
liuye / iNaturalist
A espécie: Camaleão-de-labord (Furcifer labordi).
Tempo de vida: 4 a 5 meses.
O ciclo: este camaleão passa mais tempo existindo como um embrião do que como um animal ativo. Toda a população da espécie nasce de forma sincronizada em novembro, impulsionada pelo início da estação chuvosa. Eles crescem em um ritmo frenético, atingem a maturidade sexual, acasalam e botam ovos. Até março, antes da implacável estação seca da ilha começar, todos os indivíduos adultos morrem. Durante oito meses do ano, a espécie "desaparece" da face da Terra, existindo única e exclusivamente na forma de ovos enterrados no solo.
A ciência: o ciclo de vida documentado por pesquisadores foi publicado na prestigiada revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), confirmando-o como o menor tempo de vida de um tetrápode conhecido (Karsten et al., 2008).
Mamíferos: a exaustão fatal da reprodução
Nos mamíferos, o metabolismo dita as regras. Quanto mais acelerado, mais rápido o combustível da vida é queimado.
Musaranho-pigmeu (Suncus etruscus)
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As espécies: Rato-marsupial-australiano (Antechinus spp.) e o Musaranho-pigmeu (Suncus etruscus).
Tempo de vida: Cerca de 11 meses a 1,5 ano.
O ciclo do Antechinus: os machos desse pequeno marsupial têm um fim de vida dramático marcado pela "semelparidade" (reprodução única e suicida). Ao completarem 11 meses, eles entram em uma época de acasalamento tão intensa que seus corpos são inundados por hormônios de estresse (cortisol). O esforço ininterrupto para copular com o máximo de fêmeas possíveis causa o colapso do sistema imunológico, levando todos os machos da população à morte por exaustão, hemorragias e infecções em questão de semanas.
O ciclo do Musaranho: já o musaranho-pigmeu trava uma batalha diária contra a fome. Sendo um dos menores mamíferos do planeta (pesando cerca de 1,8 gramas), seu coração bate impressionantes 1.500 vezes por minuto. Esse metabolismo frenético exige que ele coma o equivalente ao próprio peso corporal todos os dias. Uma pausa de poucas horas sem alimento significa a morte, o que desgasta o organismo em pouco mais de um ano.
Peixes: a corrida contra a evaporação da água
Eviota sigillata
craigjhowe / iNaturalist
A água é sinônimo de vida, mas para alguns peixes, ela é um recurso com prazo de validade curtíssimo.
As espécies: Killifish-turquesa (Nothobranchius furzeri) e o Góbio-pigmeu (Eviota sigillata).
Tempo de vida: 8 semanas a 6 meses.
O ciclo: o Killifish habita poças temporárias nas savanas de Moçambique e do Zimbábue. Quando chove, os ovos eclodem. Em apenas três semanas, o peixe atinge a fase adulta e começa a desovar diariamente. Ele precisa garantir que seus embriões entrem em "diapausa" (um estado de dormência na lama seca) antes que a poça evapore sob o sol africano.
No oceano: já nos recifes de coral da Grande Barreira, na Austrália, o minúsculo Góbio-pigmeu detém o recorde marinho. Um estudo publicado na revista Current Biology (Depczynski & Bellwood, 2005) mapeou a vida deste peixe em exatos 59 dias: três semanas como larva nadando no oceano, duas semanas para amadurecer no recife e meras três semanas e meia de vida adulta para acasalar antes de morrer de velhice.
Aves: maturidade a jato
Codorna-japonesa (Coturnix japonica)
jhihweitsai / iNaturalist
As aves são reconhecidas pela longevidade. Papagaios e albatrozes cruzam a barreira dos 50 anos com facilidade, tornando as aves o grupo de vertebrados de vida mais longa proporcional ao tamanho do corpo. Contudo, há exceções.
A espécie: Codorna-japonesa (Coturnix japonica).
Tempo de vida: 1,5 a 3 anos (na natureza).
O ciclo: constantemente predadas na natureza, as codornas compensaram a alta taxa de mortalidade com um amadurecimento sexual relâmpago. Enquanto outras aves demoram meses ou anos para se reproduzir, a codorna está pronta para iniciar seu ciclo reprodutivo com apenas 6 semanas de vida. Isso garante a continuidade da espécie mesmo que os indivíduos tenham uma vida útil extremamente restrita fora do cativeiro.
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