Seis anos após morte de adolescente, processo contra guarda entra na reta final para júri em Campinas

  • 08/10/2026
(Foto: Reprodução)
Jordy Moura Silva, de 15 anos, morto por um guarda municipal em Campinas, em 2020 Arquivo pessoal Um ano e um mês após a Justiça determinar que o guarda municipal de Campinas (SP) acusado de matar um adolescente de 15 anos seja julgado pelo Tribunal do Júri, a juíza responsável determinou a intimação das partes para que apresentem as testemunhas que irão depor em plenário. O procedimento antecede a marcação da data do julgamento. Claudino Gonçalves, que responde ao processo em liberdade, foi denunciado por homicídio qualificado e tentativa de homicídio - já que o disparo também atingiu o irmão de Jordy Moura Silva. A movimentação do processo, 6 anos e meio após o crime, mexe com familiares do adolescente. Caique Andre Moura Santos, de 33 anos, dirigia a motocicleta no momento do disparo, em abril de 2020, e diz que a família anseia por justiça. "Muitas pessoas perguntaram para gente: 'vocês querem vingança?' Não, a gente nunca quis vingança. A gente veio de família boa, todo mundo trabalhador, todo mundo família. O que a gente anseia mesmo é justiça." Segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o processo está na fase final antes da designação da data do plenário. "A promotoria já apresentou manifestação nos termos do artigo 422 do Código de Processo Penal (CPP), etapa em que as partes indicam as testemunhas que pretendem ouvir perante os jurados e podem solicitar diligências complementares", informou. Agora, a defesa do guarda municipal tem prazo de cinco dias para se manifestar. Encerrada essa fase, caberá à juíza responsável pelo caso marcar a data do julgamento. Jordy Moura e a mãe Marluce Moura Arquivo pessoal Expectativa por condenação Advogado da família de Jordy e assistente da acusação, Salvador Scarpelli Neto afirma que a tramitação seguiu o rito esperado para um caso complexo e lembra que a defesa recorreu da decisão que enviou o caso ao Tribunal do Júri. "Agora a gente se encontra na fase do artigo 422, que é esse momento de preparação para o júri. O Ministério Público, a assistência da acusação e depois a defesa vão se manifestar para indicar testemunhas e fazer requerimentos. Depois dessa fase, o próximo passo é marcar o julgamento", explica. O advogado afirma que a acusação vai pedir celeridade na realização do júri em razão do tempo transcorrido desde o crime e da gravidade do caso, que envolve um agente de segurança pública acusado de agir durante o exercício da função. "Nós vamos pedir para que o júri seja marcado com a maior brevidade possível em razão do tempo que já transcorreu e por se tratar de um caso extremamente grave do ponto de vista do Estado", diz. A expectativa da acusação é de condenação. "Existem provas suficientes no sentido de que ele disparou contra a motocicleta onde estavam Caique e Jordy. Temos testemunhas que viram o disparo ser realizado da viatura em que se encontrava o acusado", afirma o advogado. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública de Campinas informou que o procedimento administrativo relacionado ao guarda municipal continua em tramitação na Corregedoria da Guarda Municipal e corre sob sigilo. O g1 não conseguiu contato com a defesa do acusado até a última atualização desta reportagem. LEIA MAIS: Comunidade escolar divulga nota de repúdio sobre morte de aluno em Campinas: 'vida tirada de maneira brutal'; guarda foi preso Polícia Civil investiga morte de adolescente baleado em Campinas O caso Jordy foi morto com um tiro nas costas na garupa de uma moto pilotada por um dos irmãos dele. O homicídio ocorreu no bairro Reforma Agrária após a Guarda Municipal ser acionada porque um grupo estava empinando motocicletas em uma área de obras do prolongamento do Anel Viário Magalhães Teixeira (SP-083). Na data da morte, a Guarda Municipal informou que foi recebida a tiros quando chegou ao local. No entanto, um jovem que fazia parte do grupo de motociclistas contrariou a versão da corporação. Em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo, ele afirmou que os guardas deram tiros para o alto. “Aí o adolescente começou a correr e a Guarda atirou praticamente à queima-roupa", disse. Aassistente da acusação, o advogado Salvador Scarpelli Neto ressalta que o adolescente não era criminoso, e que as provas atestam que ele não teria atirado. "Todas as provas que foram realizadas, principalmente o exame residográfico, bem como a perícia no local, demonstram que Jordi não tinha arma, não disparou arma, E que nenhuma arma foi encontrada no local", disse. Guardas impediram socorro, diz testemunha Gonçalves foi preso em flagrante na data do homicídio e foi liberado no dia seguinte, em audiência de custódia. O MP entrou tentou reverter a soltura, mas o recurso foi negado. Nove testemunhas foram ouvidas pela Polícia Civil no auto de prisão do guarda, que permaneceu em silêncio no depoimento. Dentre os depoentes estavam outros dois agentes da guarda, seis pessoas que participaram do grupo que empinava as motos e uma moradora da região que testemunhou o caso. A mulher que mora próximo às obras afirmou à Polícia Civil, na época, que era comum que jovens utilizassem o local para empinar as motos, pois não havia trânsito. Ela afirmou que estava a cerca de 50 metros do local e viu quando a viatura da guarda emparelhou com uma das motos antes de disparar. “O menino que estava atrás, na garupa, o que morreu, inclusive levantava as mãos para a cima, em rendição, gritando ‘para, para’, acho que para o irmão que estava conduzindo a motocicleta”, afirmou a moradora. No depoimento, ela acrescentou que percebeu que o jovem estava vivo e tentou ajudar no socorro, mas foi impedida pelos guardas. Outro morador ofereceu o carro dele para levar o jovem, mas também foi impedido. “Eu dizia pra eles [guardas municipais] deixa eu socorrer, deixa eu socorrer’’, mas um deles, com arma na mão, disse para eu me afastar, pois ninguém iria socorrer, que não podia prestar socorro, que a lei não deixava, que só o Samu podia socorrer”. A Guarda Municipal explicou à época que não realizou o socorro porque uma lei estadual proíbe que seja realizado o atendimento de "pessoas feridas em confronto" em viaturas policiais, para preservar o local do crime. Adolescente de 15 anos é morto a tiros em Campinas e Polícia Civil investiga Eduardo Rodrigues/EPTV Um dos guardas ouvidos durante a investigação era o parceiro de Gonçalves. Na época, ele afirmou à Polícia Civil que havia cerca de 80 motos no local das obras, onde frequentemente havia prática de direção perigosa “se utilizando de motos de leilão e possivelmente roubadas”. Sobre o momento da morte do estudante, o guarda afirmou que “uma moto preta, alta, talvez uma XRE, o garupa se virou e efetuou o disparo contra a guarnição, momento este em que o encarregado, o guarda Claudino, efetuou dois disparos contra o agressor. Ato contínuo, esta moto passou pelas britas, enquanto uma moto cinza, que estava à frente da moto preta, tentou passar pela brita e parou, e os dois ocupantes caíram”. “Que pararam ao lado desta moto cinza caída, e ao averiguar o que tinha acontecido, verificaram que o garupa estava ferido. Que pediram para acionar o resgate via Cecon (central de rádio). Que tentou conter o sangramento por alguns instantes, mas algumas pessoas chegaram próximo ao local e passaram a jogar pedras”. Questionado sobre não ter permitido o socorro do garoto, o parceiro de Gonçalves disse que não lembra da moradora. “Eu não me recordo desta mulher chegar no local e falar isso, eu que coloquei a mão para estancar o sangue. Mas depois passaram a jogar pedras, então pedi para um outro garoto colocar a mão no machucado e não soltar até a chegada da ambulância, mas chegavam algumas pessoas para tentar socorrê-lo, mas aí sai mais sangue da vítima”, disse, conforme o depoimento. Os participantes do grupo que empinava motos, três deles irmãos de Jordy Moura Silva, negaram que havia alguém armado dentre eles. Na decisão de receber a denúncia, o juiz José Henrique Rodrigues Torres considerou que os depoimentos “não foram colhidos sob a égide do contraditório e não servem para embasar a procedência das alegações deduzidas na denúncia.” “Entretanto, servem para embasar o juízo de admissibilidade da acusação, neste momento processual inicial, que não se presta ao exame da procedência ou não das alegações do Ministério Público”. Irmão mais velho foi atingido de raspão pelo mesmo disparo que tirou a vida de Jordy Moura Arquivo pessoal VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/10/08/seis-anos-apos-morte-de-adolescente-processo-contra-guarda-entra-na-reta-final-para-juri-em-campinas.ghtml


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